O que a 15° Festa Literária Internacional de Paraty nos trouxe?

Paraty é uma cidade querida que desde que pisei pela primeira vez (em 2008), volto todos os anos, mas nunca tinha conseguido férias no período da FLIP. Era uma vontade de perdurava por muito tempo, quando soube quem seria o autor homenageado: Lima Barreto sabia que teria enormes surpresas e não seria apenas pelo Triste Fim de Policarpo Quaresma.


A temática principal que foi abordada por toda festa foi o racismo no Brasil, questões sociais e políticas, afinal tudo tem uma ligação não é mesmo?


O centro histórico é convidativo para todos os públicos. Lotado de famílias, casais, grupos de amigos, professores, intelectuais das artes, literatura, antropologia, artistas, fotógrafos, todos juntos com o mesmo intuito: vivenciar nossa cultura e fazer intercâmbio de ideias.


Aos marinheiros de primeira viagem, seja na cidade ou na FLIP, vale a pena andar com um mapinha turístico com os nomes das ruas, já que são todas muito parecidas e lindas! Observação: muito cuidado ao andar pelas ruas de pedras, tente utilizar sempre calçado fechado e/ou andar por uma das laterais das ruas, as pedras são menos escorregadias. Tombos são constantes e rotineiros nessa região.

Além disso, para a festa era fornecido um livrinho com datas, horários e locais de todas as atividades, e foram muitas! Infelizmente não dava tempo de assistir todas com altíssimas qualidades e lotadas de gente.


Aproveitei as filas para socializar e saber um pouco das pessoas. Alguns eram do próprio estado do Rio, professores de história, artes, geografia, sociologia, filosofia e literatura. Mas tinha gente de outros cantos do Brasil também, de Curitiba, Salvador, Belém, Brasília, São Paulo e conterrâneos da Baixada Santista. Alguns americanos, franceses, argentinos e de alguns países africanos, sim!


Lilia Moritz SchawarczCheguei na quinta no fim da tarde. A cerimônia de abertura com Lázaro Ramos e foi emocionante, vi online, o ator leu trechos dos textos do Lima Barreto.

Dia a Dia

Dia 01 - Quinta


Aproveitei o fim da tarde para assistir no telão da praça uma das mesas.


Em torno de todo o centro histórico existia um telão que você tinha possibilidade de assistir e fazer perguntas para os palestrantes gratuitamente. Os ingressos comprados eram sempre para o auditório que ficava dentro da igreja matriz.


Mesa 06: em nome da mãe, com Noemi Jaffe, Scholastique e Mukasonga. Mesmo para ouvintes na praça, era disponibilizado fone para traduções simultâneas.

Dia 02 - Sexta


Na parte da manhã corri para o centro histórico.


Fiquei hospedada num hostel, chamado Bossa Nova, os donos são dois amigos e o pessoal que trabalha com eles são simplesmente encantadores. Todos muito simpáticos e cheios de histórias para contar, dois deles são argentinos e estavam viajando pelo Brasil. O hostel tem um bar próprio e todas as bebidas com um preço justo. Sua localização é próxima de bancos, mercados e rodoviária. Fica aproximadamente 15min de caminhada para o centro histórico.


Endereço: Rua Geraldo Antunes Vasconcelos, 33. Paraty

Fugi dos passeios tradicionais de escuna e cachoeira, já tinha feito nas outras vezes. Mas segue como sugestão para dias livres: Um grupo do hostel fez esse passeio, pagaram 40 reais, passaram por diversas praias, a mais conhecida é a Jurumin, almoçaram num restaurante de uma família de pescadores. Valor: R$ 69,00 quilo de comida típica caiçara.


Logo antes das 10 da manhã a quadra da casa folha dobrava a rua, era uma conversa com o médico Dráuzio Varela, consegui fotografar de longe e pude ouvir um pouco do seu discurso sobre seu novo livro “Prisioneiras”, falou um pouco sobre feminismo e homossexualismo.


Em seguida corri para a praça da igreja matriz, lá estava presente o ator Lázaro Ramos e sua simpatia me esperando (não é ironia), na estrada a caminho para Paraty consegui ler seu livro na íntegra “na minha pele”, eu empresto para quem quiser, vale a pena ler e está com preço acessível e justo.


Bom, qualquer lugar que ele estivesse era sinônimo de fila e superlotação, fiz questão de ficar, era um assunto que estudo e me interessava. Ou era minha intuição funcionando. O título da conversa era “a pele que habito”, foram discutidos assuntos que envolviam o preconceito racial nosso de cada dia, mas foi Dona Diva, professora Diva, uma linda senhora que nos deu um depoimento tão lindo e emocionante que ficou marcado na memória de todos que estavam ali.

Já estava tarde, corri para o almoço.


Casa Coupê: fiz questão de almoçar lá por pura tradição todo ano passo lá e indico para os mais próximos o famoso bolinho de feijoada, ele é farto, a porção vem 6 e acompanha um mini caipirinha, serve duas pessoas e o custa 35,00 reais.


Endereço: Rua. Mal. Santos Dias, Centro Histórico. Paraty.



Próximo ao palco principal da igreja matriz, o SESC deixou disponível vários espaços infantis, de leitura e brinquedos para os pequenos.


Utilizei a tarde livre para andar e visitar alguns eventos. Teve uma hora que a indecisão batia na porta, eram muitos eventos interessantes ao mesmo tempo.


O SESC sempre tinha alguma coisa acontecendo, uma roda de conversa, uma música ao vivo ou uma leitura.


No meio do caminho tinha a tenda da livraria travessa, repleta de lançamentos e bons livros. Com temáticas que nunca vi pela minha cidade, “autores africanos, feminismo, escravidão” eu estava no meu mundo perfeito, apesar de alguns livros estarem com um preço salgado perto de livros comprados pela internet. Além dela, a casa folha deixava disponíveis livros, cd e filmes de coleções passadas por míseros 10,00 reais. Sebos não faltaram, cada praça tinha um, cada qual com sua característica singular.

Nesse mesmo entorno escritores independentes tentavam vender seus livros, coletivos com suas poesias também, o mais interessante foi um livrinho que adquiri de um coletivo feminino chamado “Nós, as poetas”, são garotas do Rio de Janeiro que rodam o Brasil vendendo seus poemas repletos de artes.

O mais interessante do evento na verdade foram os artistas de rua, aqueles no anonimato, a cada esquina tinha uma intervenção artística, de teatro, sarau, dança, música, pintura, artesanato, me senti uma criança no primeiro dia que conhece o mar. Aproveitei o restante do dia para apreciar cada um deles.

Dia 03 - Sábado

Fui um pouco mais cedo para o centro com o intuito de conseguir entrar na casa folha para assistir a conversa do Lázaro Ramos com a historiadora Lilia Schwarcz, soube que a chegada dos primeiros da fila foi às 7h. Às 8h30 as senhas estavam esgotadas.


Consegui ouvir um pouco da conversa do lado de fora, no meio de muitos ‘FORA TEMER’, sempre que a TV globo tentava gravar, os autores dos livros conversaram sobre o problema educacional escolar, baixos salários dos professores e falavam um pouco mais dos seus livros.

Ao meio dia, fui para o auditório principal dentro da igreja matriz. A composição da mesa foi com o historiador ganhador do prêmio Machado de Assis, João José Reis e da romancista Ana Miranda, que lançou recentemente seu livro “Xica da Silva, Cinderela Negra”, com mediação da historiadora Lilia Schwarcz.


Foi a mesa que paguei, então pude entrar na igreja, palco das principais conversas. Além de leituras sobre os dois livros lançados, foram discutidos assuntos atuais como nossa situação política, o próprio professor disse: “o pesadelo que estamos vivendo está bem documentado”, quando dizia à respeito da importância dos documentos históricos para registro da nossa memória.


Em seguida teve uma sessão de autógrafos com os três autores, fui tiete, não me contive.

Na parte da tarde muita coisa estava acontecendo ao mesmo tempo, na casa da folha, o filósofo Pondé falava sobre seu livro de teoria do marketing existencial e a relação com a política, enquanto em outros cantos do centro tinha sarau, roda de conversa, intervenções poéticas, sessões de cinema na casa de cultura, show do cantor Caio Prado no SESC. Logo em seguida do Pondé, a atriz e escritora Fernanda Torres teve uma fala na casa folha sobre a arte de escrita e arte de leitura e novamente a casa estava extremamente lotada.


Por volta das oito da noite, na casa do papel, rolava a exibição do curta “Baía gráfica”, ao mesmo tempo que artistas regionais recitavam suas poesias, grafitavam e dançavam. Sessões de cinema na casa de cultura. Oficinas literárias, oficina de cerâmica, trovadores urbanos, projeção do Projeto Symbiosi no SESC também aconteciam. O Museu da língua portuguesa também estava presente com uma exposição na casa de cultura.

E também na Casa Amado e Saramago aconteciam debates e conversas, algumas até com a participação da querida Pilar Del Río, viúva do Saramago que participou da mesa 9 com o título na contracorrente.

Um amorzinho chamado Paraty/RJ


A cidade por si só é encantadora, sua arquitetura, o jeito simples e pacato dos moradores, o brilho que é deixado pelos artistas de rua, o tradicionais doces de tabuleiros que lembram sempre doces da casa da vó, as tradicionais cachaças ou a ‘fraquinhas’ que mais parecem licor de chocolate com um pouquinho de pimenta e nelas você tem direito de degustações antes de comprar, ou pode não comprar também, tudo bem. Lojinhas de lembranças que ficam em cada esquina. Paraty é assim, repleta de detalhes e encantos. E a FLIP? Bom, a festa desse ano teve seu auge por dar visão e voz à gente simples, histórias reais, de Lázaros, Divas e Limas, histórias do povo brasileiro.

GALERIA FLIP 2017

SOBRE A AUTORA

|ANELLY MOREIRA, Historiadora e Turismóloga|

Sou guia de turismo, educadora, pesquiso escravidão, gosto de documentários, filmes, música, literatura desenho e fotografo por hobbie. Toco ukulele nas horas vagas.

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